Falso Moderado
A teoria da ferradura diz que os dois extremos do espectro político são mais próximos um do outro do que do centro. No Brasil, temos visto o uso da expressão polarização para explicar a divisão das intenções de votos concentradas em Lula e Bolsonaro. Polarização vem de polo. Polos são extremidades opostas da Terra ou de qualquer esfera. A expressão polarização dá a ideia de Lula e Bolsonaro em posições extremas e opostas, equidistantes do centro.
Evidentemente, esses argumentos são uma grande balela. Reduzir o debate político a uma imagem bidimensional, simplista, é apenas uma forma de dar aos ditos centristas um argumento de legitimidade. Chamar Lula de extremo é ignorar as ações dos seus 8 anos, suas relações internacionais, suas articulações políticas e suas palavras. É fazer do líder petista um espantalho fundamentalista de esquerda. E foi exatamente esse discurso, usado pesadamente pela grande mídia que nos colocou nessa situação catastrófica.
Tornou-se muito comum o discurso do falso moderado, nesse clima de radicalização binária, direita vs esquerda. Diante de um cenário de maniqueísmo, algumas pessoas assumem uma posição supostamente isenta. O que temos chamado de “isentão”.
Não se tratam se pessoas com ideias independentes e livres das correntes políticas predominantes; muito menos pessoas capazes de avaliar os diferentes espectros do debate político. Muitas vezes, trata-se de pessoas manipuladas pela propaganda midiática que acabam favorecendo ao Establishment; aos bilionários, ao mercado, ao setor financeiro e ao sistema corrupto. Pois eles são cooptados, e cooptam por poder gregário, pessoas que tem a capacidade de identificar a óbvia manipulação da massa, mas assumem uma posição de equivaler todas outras alternativas. Ou seja, tomam a posição passiva de dizer que “todos são iguais”. – Todo político é ladrão. São tudo farinha do mesmo saco. Sempre foi uma merda. Não tem jeito.
Irrita-me muito mais o falso moderado do que o reacionário fanático. Porque o falso moderado te dá uma esperança de que as pessoas vão abrir os olhos e as coisas vão mudar. E quando você está mais empolgado na argumentação com a qual ele até concorda em grande parte, ele assume o discurso desesperançoso pseudo-realista, sentado na confortável poltrona do derrotista. Se a ultra-direita não estivesse no poder, o país estaria igual. Como se caso a Alemanha nazista tivesse ganhado a guerra o mundo seria o mesmo. Como se fôssemos um mero acaso do destino. Como se não tivéssemos poder algum de livre arbítrio. E ele não se dá conta que ele é tão culpado pela situação quanto o reacionário fanático.
Não se engane, os falsos moderados votaram no Bolsonaro ou votaram em branco. Ou não compareceram às urnas. Em outras palavras, lavaram as mãos diante da tragédia que ele mesmo era capaz de prever. Porém, preferiu crer na propaganda que demonizou o PT. E assim ele continua. Ele, assim como o reaça fanático, está desconectado do mundo real; e em estado de negação da realidade.
Não foi à toa que a abolição da escravatura foi gradual, com a lei do ventre livre dando liberdade aos filhos de escravas anteriormente à Lei Áurea. E ainda foi com indenização aos senhores de escravos. Os isentões, os centristas, os falsos-moderados, achavam que seria muito radical, muito extremo, simplesmente dar liberdade a seres humanos inocentes sem compensar seus algozes pelo prejuízo.
É nesse clima que a mídia dos bilionários tenta, com toda força, lançar uma terceira via. Mas não um Ciro, não um Boulos. Claro que não. Uma 3a via que atenda aos interesses da oligarquia nacional. Podemos libertar escravos, mas desde que indenizemos os fazendeiros.
O que a grande mídia busca é emplacar o bolsonarismo sem Bolsonaro. Um Bolsonarismo que escove os dentes e consiga conectar 5 sentenças com concordância, mas que atue reprimindo movimentos sociais, avançando sobre terras protegidas, sobre direitos trabalhistas e previdenciários, etc. Enfim, o neoliberalismo sem a imagem desmoralizante de um sujeito como Bolsonaro.
(Artigo escrito em 27 de fevereiro de 2020)



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